ARMAS UTILIZADAS NO CONFRONTO

A foto clássica dos Defensores de Belém permite identificar com bastante precisão os traços característicos das armas empregadas no conflito contra o bando mercenário. 

Predominam fuzis de repetição tipo Mauser (Mauser 1908 ou variantes do sistema Mauser 1894/1896), identificáveis pela culatra com ferrolho lateral e manual (bolt-action), cano longo e coronha de madeira, muito utilizadas no Brasil na virada daquele século (Paula Neto, 2011, on-line).

Após cada disparo, o atirador deve levantar o ferrolho, puxar para trás para ejetar o cartucho disparado, avançar para inserir um novo cartucho da câmara e trancar o ferrolho antes de atirar novamente. O carregador interno padrão do Mauser 1908, por exemplo, comportava 5 cartuchos 7x57mm, que podiam ser inseridos com um clip carregador (stripper clip). A depender do atirador, este fuzil realizava 10 a 12 tiros por minuto.

Na fotografia dos defensores também é possível observar alguns defensores utilizando carabinas tipo Winchester (lever-action) (modelo provável: Winchester 1873 ou 1892). Identificável pela presença da alavanca sob o guarda-mato e pelo cano e ferrolho mais curtos em relação aos fuzis Mauser, as carabinas Winchester eram populares devido à sua rapidez de disparo. Elas possuem cadência de tiro superior à dos fuzis de ferrolho devido à rapidez do mecanismo de ação por alavanca, possibilitando 15 a 20 tiros por minuto, a depender da habilidade do atirador.

Nas carabinas Winchester, após o disparo, o atirador acionava a alavanca sob o guarda-mato, que ejetava o cartucho disparado, rearmava o cão e inseria automaticamente o próximo cartucho na câmara. Isso torna o ciclo de disparo mais rápido do que o ferrolho manual dos Mausers. Como se tratava de uma arma melhor, faz sentido que na fotografia ela esteja sendo portada pelo único oficial público, o Subdelegado Nelson Leite.

Por fim, alguns defensores ostentavam armas secundárias nos cintos, consistentes em revólveres de tambor. São armas curtas de ação simples ou dupla, como os revólveres Colt ou Smith & Wesson, voltadas para defesa pessoal ou para combate a curta distância.

Além do posicionamento estratégico dos atiradores e da fortificação da igreja como bastião defensivo, os defensores improvisaram um ardil que seria fundamental para a vitória: o emprego de ronqueiras para simular armamento pesado. Segundo as fontes (Dantas, 2009, 2015; Abreu, 2023), a ideia teria partido do Subdelegado Leite, mas os autores imaginam que o refinamento de tal ardil não tenha passado ao largo do conhecido engenho de Zéu da Fubica.

Ronqueiras são artefatos pirotécnicos rudimentares, montados com pólvora comprimida em recipientes metálicos e acionados por pavio (Ronqueiras, 2025). Eles são muito ruidosos e utilizados em festas juninas, celebrações religiosas e comemorações de regozijo e distinção, frequentemente em conjunto com outros dispositivos semelhantes, tais como rojões, fogos do ar e bacamartes. Para exemplos do uso sertanejo das ronqueiras em celebrações, procissões e recepções públicas, ver O rei dos jagunços (Benício, 2013), em que se descreve a chegada de Antônio Conselheiro a povoações do interior ao som de “rojões, fogos do ar, tiros de ronqueiras e bacamartes” (p. 60), como sinais de regozijo e distinção; em outro momento, registra que uma procissão foi recebida “a tiros de ronqueiras e fogos de artifício” (p. 193).