O DIA SEGUINTE: LAMPIÃO NO CANADÁ
Casarão do Sítio Canadá pertencente ao Major José Fernandes.
Fotos antes da reforma.
Imagens: Marcus Vinicius Abrantes Pinheiro.
Na noite de 15 de maio de 1927, Belém do Arrojado resistiu. Do alto da Igreja Matriz, os defensores da vila transformaram o centro do povoado em barreira de fogo. Lampião recuou. Mas a retirada não significou o fim do perigo. Na manhã seguinte, o bando voltou a se mover pelas redondezas. Em vez de enfrentar novamente a vila que havia resistido, Lampião tomou caminhos rurais, contornou Belém e seguiu em direção ao sítio Canadá, localizado a cerca de quatro quilômetros da povoação.
Para compreender os acontecimentos do Canadá, é preciso situar brevemente a família do Major José Fernandes, antigo proprietário ligado àquele núcleo familiar. Filho de Manoel Fernandes Moreira e de Maria Fernandes da Costa, ambos descendentes dos antigos troncos familiares de São Francisco e São Brás, o Major nasceu na década de 1840 e faleceu em 1922, pouco antes de completar oitenta anos. Foi homem de vastas propriedades, gado e dinheiro, sendo lembrado, ao lado de Sabino Correia de Queiroga e José Vieira Bujary, entre os nomes de maior patrimônio da antiga Vila de Belém.
O Major José Fernandes teve como irmãos Antônio Fernandes Moreira, Silvestre Fernandes Moreira, Mônica Maria do Espírito Santo, Josepha Fernandes da Silva, Maria Fernandes da Costa, conhecida como Mariá, e Anna Fernandes Moreira. Casou-se duas vezes, em ambos os matrimônios com mulheres chamadas Úrsula, ambas ligadas por parentesco à mesma rede familiar.
O primeiro casamento foi com Úrsula Correia de Queiroga, filha de João Correia de Queiroga e de Maria Felicíssima de Queiroga. Desse matrimônio nasceram Euclides Fernandes Moreira, Maria Arlinda Fernandes, José Fernandes Vieira, Maria Fernandes da Costa, Antônio Fernandes da Costa, Maria Fernandes Silvestre, Úrsula Fernandes e Domitila Fernandes. O texto genealógico também menciona, nesse conjunto familiar, Teodomira Fernandes de Queiroga, casada com João Queiroga, sem filhos.
O segundo casamento do Major foi com Úrsula Moreira da Costa, filha do Capitão Antônio Francisco da Costa e de Maria Porfíria Vieira, da Santa Umbelina. Desse matrimônio nasceram Manoel Fernandes Neto, conhecido como Neto, Gentil Fernandes da Costa, Cirino Fernandes da Costa, Juvino Fernandes da Costa, Maria Hermínia Fernandes e Umbelina Fernandes Moreira, chamada Belinha. Abaixo, reunimos fotografias de três desses filhos: Maria Hermínia Fernandes, Juvino Fernandes da Costa e Umbelina Fernandes Moreira.
Com esse núcleo familiar situado, compreende-se melhor o primeiro episódio ocorrido naquela manhã. O alvo mais conhecido da passagem de Lampião pelo Canadá foi o casarão da família Fernandes, ligado ao antigo patrimônio do Major José Fernandes. Na época da invasão, o Major já havia falecido, e a casa estava associada à presença de Úrsula Moreira da Costa, sua viúva, e de Cirino Fernandes da Costa, filho do casal. Segundo o depoimento de Francisca Fernandes da Silveira, o bando prendeu Úrsula e Cirino, reuniu pessoas dentro da casa-grande, agrediu moradores e exigiu dinheiro e bens. Entre as pessoas atingidas nesse episódio estava também José Fernandes Sobrinho, neto do Major José Fernandes pelo ramo de José Fernandes Vieira e Maria da Glória Fernandes. Ele era esposo da própria Francisca Fernandes da Silveira, depoente que preservou parte importante da memória sobre a passagem de Lampião pelo Canadá. Durante a ação, José Fernandes Sobrinho foi levado como refém até Marcelino Vieira, no Rio Grande do Norte.
Esse episódio do casarão foi narrado em A Peleja de Lampião no Belém do Arrojado. Neste espaço, porém, o olhar se volta para outro ponto do mesmo sítio: a residência de Maria Hermínia Fernandes, filha do Major José Fernandes e irmã de Cirino, Juvino e Umbelina. Casada com José Moisés Formiga, Maria Hermínia mantinha sua própria casa no Canadá, também alcançada pela passagem do bando naquela manhã. Foi nessa residência que a memória familiar preservou o confronto envolvendo José Fernandes Formiga, conhecido como Zuza do Canadá, filho de Maria Hermínia e José Moisés.
Segundo relato de Gercy Fernandes Formiga, filha de Maria Hermínia, os cangaceiros entraram na casa, levaram arreios, selas, roupas e outros pertences. Enquanto isso, Maria Hermínia preparava café e assava queijo para os homens do bando. A violência, porém, se fez presente dentro da própria residência: conforme a lembrança transmitida por Gercy, um dos cangaceiros chicoteava Maria Hermínia, enquanto outro, conhecido como Pirigó de Ouro, tentou matar Zuza.
Foi nesse momento que ocorreu a luta corporal preservada pela memória da família. Zuza teria encontrado um punhal dentro de um baú e, com ele, passou a se defender do ataque. No confronto, Pirigó de Ouro avançava contra ele, e Zuza, mesmo em desvantagem, segurava a lâmina do punhal para impedir o golpe. A resistência deixou ferimentos em suas mãos, sinal da violência do embate ocorrido dentro da casa.
Ainda segundo Gercy, enquanto a luta acontecia em um dos quartos, José Moisés Formiga chegava da roça trazendo um balaio de milho verde na cabeça. Um dos cangaceiros, conhecido como Moreno, reconheceu José Moisés, pois ambos teriam sido amigos no Barro, no Ceará. José Moisés, então, pediu proteção para sua família e foi atendido. A intervenção permitiu que Zuza se livrasse do ataque, embora ferido nas mãos.
A invasão da casa de Maria Hermínia Fernandes ajuda a completar a história do Canadá. Ao lado do episódio da casa-grande, já narrado no livro, permanece a lembrança de Zuza do Canadá e de sua reação diante de um dos homens de Lampião. Preservar esse relato é também reconhecer que a memória de 16 de maio de 1927 se formou em mais de uma casa, em mais de uma família e em mais de uma voz.
Ambos os locais passaram a integrar o roteiro de memória do cangaço na região. Em 5 de fevereiro de 2026, o Cariri Cangaço reconheceu tanto o casarão da família Fernandes quanto a residência de Maria Hermínia Fernandes como lugares de memória, com a aposição de placas culturais nos respectivos espaços. O gesto registrou, no próprio território do sítio Canadá, a lembrança das duas passagens associadas à presença do bando de Lampião naquela manhã de 16 de maio de 1927.
Abaixo mais detalhes do casarão.
Imagens: Marcus Vinicius Abrantes Pinheiro.
O casarão do sítio Canadá apresenta características compatíveis com a arquitetura rural brasileira do século XIX, com provável construção por volta de 1840. A edificação reúne elementos associados aos antigos sobrados sertanejos e às casas de sítio de maior porte: dois pavimentos, fachada ampla, janelas altas em madeira, molduras simples, frisos horizontais e coroamento superior com aberturas cegas. A composição da fachada, organizada por linhas simétricas e pela separação visual entre os pavimentos, aproxima o imóvel das casas oitocentistas em que a moradia também expressava patrimônio familiar, comando da propriedade e posição econômica.
A leitura arquitetônica do imóvel dialoga com os estudos de Solange de Aragão, em seu livro Ensaio Sobre a Casa Brasileira do Século XIX. A autora mostra que a moradia oitocentista assumiu várias formas, entre elas o sobrado, a casa assobradada, a casa de sítio, a casa da roça e a casa de campo, variando conforme o lugar, os materiais disponíveis e a posição social de seus moradores. Nesse contexto, o casarão do Canadá se aproxima do modelo de residência rural de prestígio, articulando função doméstica, administração da propriedade e representação familiar.
Os detalhes da fachada também reforçam essa vinculação ao repertório arquitetônico do século XIX. As esquadrias altas favorecem ventilação e iluminação; os frisos horizontais organizam visualmente os pavimentos; as molduras em torno das aberturas dão acabamento à fachada; e o frontão superior cria uma marca de elevação e destaque. Em construções desse período, como observa Aragão, a casa brasileira passou por transformações formais ao longo do oitocentismo, incorporando platibandas, ornamentos discretos e referências neoclássicas ou ecléticas em muitas fachadas.
A escala do casarão indica uma residência vinculada a uma propriedade rural de maior importância. Esse tipo de construção funcionava como ponto de organização da vida familiar, guarda de bens, recepção de pessoas e administração das atividades da fazenda. Sua presença no sítio Canadá ajuda a compreender a força econômica e social da família Fernandes naquele território, bem como a centralidade da casa na paisagem rural da época.
Referência:
ARAGÃO, Solange de. Ensaio Sobre a Casa Brasileira do Século XIX. 2. ed. São Paulo: Editora Edgard Blucher LTDA, 2017.
Esse capítulo foi escrito pelos autores com o apoio de Raimundo Rubismar de Andrade (Neguinho de Feitosa) – Agente Cultural e Turístico.
Como citar essa matéria:
ESTRELA, Marcelo Duarte Guilherme. MARTINS, Tiago MIsael de Jesus; ANDRADE, Raimundo Rubismar de. O Dia Seguinte: O Ataque ao Canadá. A Peleja de Lampião, 2026. Disponível em: https://apelejadelampiao.com.br/ataque-ao-canada/. Acesso em: 26 abr. 2026.